Minha história #6 – Violência contra mulher com deficiência

Imagem criado com IA Adobe Firefly.

Reunimos, nessa publicação, textos de mulheres com deficiência que sofreram violência doméstica e como isso impactou não apenas a autoestima e a saúde, como também a carreira profissional.

Meu nome é Orlândia, sou da cidade de Bacabal Maranhão. Na verdade, esse lamentável episódio que ocorreu eu já tinha vivido outras vezes, só que eu não tinha conhecimento do que realmente era violência contra a mulher. Meu primeiro marido, pai do meu filho, de início, aparentemente, era bom. Mas com o passar dos tempos foi demonstrando ser uma pessoa ignorante e começou a me tratar com desprezo,  por fim me batia quando eu ia reclamar da falta de atenção, cuidado e de responsabilidade comigo e com meu filho.

Morei com ele aproximadamente 16 anos e nunca tive coragem de denunciar, de procurar ajuda, até que um certo tempo depois de sofrer muito criei coragem e Deus me libertou.

Essa foi a primeira vez que passei por essa situação e fiquei calada com medo pela minha vida e vida do meu filho.

Mas o  caso que vou contar agora foi depois de alguns anos, quando eu já estava separada do pai do meu filho. Conheci um homem aparentemente bom, de uma idade a mais do que a minha. Comecei a namorar com ele, ter um relacionamento sério. No início, ele me tratava muito bem, sempre atencioso com muito mimo. Isso enquanto eu morando na casa da minha mãe

Eu trabalhava em uma pizzaria à noite. Quando eu saía do trabalho, às onze horas da noite, ele já estava na porta me esperando. Tudo bem. Tudo tranquilo.

Depois de algum tempo, ele começou um comportamento estranho. Na verdade, eu fui perceber depois de algum tempo. Ele começou a falar coisas que não existia: eu não podia falar com outras pessoas, amigas, amigos, queria controlar cada passo que eu dava, meu celular ele pegava dizendo que era para fazer ligação pra mãe dele e ficava olhando com quem eu conversava.

Além do meu trabalho na pizzaria, eu também tinha uma venda de produtos de beleza, perfumes, cremes etc. Então é normal que eu tivesse vários contatos.

Certa vez, ele falou que não era pra eu falar com determinada pessoa do sexo masculino, respondi que era meu cliente, que tinha comprado um perfume comigo.

Eu dormia com ele em hotel pois ele não era da minha cidade. Quando eu saía do hotel, antes que eu chegasse em casa, ele ligava várias vezes, mas eu não atendia pois vinha de moto táxi. Então quando eu chegava em casa, se eu não atendesse ou ligasse pra ele, ele vinha aqui na minha casa e ficava perguntando porque eu não atendi, onde estava ou o que eu estava fazendo.

Foi quando eu comecei a ficar irritada e respondia com rispidez, porque não tinha lógica. Eu tinha acabado de sair de perto dele. Não tinha motivo pra desconfiança.

E o pior foi depois. Algumas vezes ele ia me buscar no trabalho e aparentemente tudo normal, mas no hotel, dentro do quarto, ele começava a falar absurdos. Me tratava mal com palavras. E umas duas vezes jogou minha bolsa na parede, quebrou um pote de vidro que eu trazia do trabalho pra colocar alguma coisa em casa. Outra vez, jogou um pote de açaí em mim que quase pegou no meu rosto e me sujou toda. Minha blusa ficou toda manchada e as paredes do hotel também.

 Outra vez, também pegou minha roupa – meu sutiã – e estraçalhou todo com as mãos. Fiquei apavorada, querendo ir embora. Aí ele trancou a porta e tirou a chave. Nessa noite, eu pensei que ele ia me matar, daí comecei entrar em pânico, desespero e tinha medo de falar pras pessoas como minhas amigas e até pra minha família, porque as pessoas só sabem julgar, apontar o dedo pra gente. Então eu sofri tudo calada, com medo.

Mas um dia, falei que não queria mais. Ele então começou a me perseguir dia e noite. Até que um dia ele foi ao meu trabalho e queria que eu fosse a força com ele em algum lugar, dizendo que era ao hospital pra eu acompanhar ele.

Falei que não iria e ele disse que eu não sairia dali com ninguém, a não ser com ele. Meu patrão falou que ia me levar em casa, mas ele começou uma confusão que só parou quando a polícia chegou. Acho que alguém ligou ou ela apareceu por acaso e ele passou a noite na delegacia.

No outro dia, eu fui fazer o pedido de medida protetiva. Isso ocorreu em abril de 2022, daí ele foi solto porque eu não tinha marca de agressão física, mas no meu psicológico sim, eu sofri tudo calada até esse dia em que ele foi parar na delegacia. 

Foi aí que tive que abandonar meu emprego que era muito bom. Meus patrões muito maravilhosos, gente de bom coração e muito compreensível. Sempre me deram apoio porque tudo aconteceu na frente do meu meu trabalho.

Fui para São Luís – onde minha filha mora – procurar ajuda médica, psicóloga, psiquiatra e outras áreas da medicina. A minha psicóloga é da Casa da Mulher Brasileira. Ela está me atendendo online. Esse mês ela já me ligou e em janeiro vou voltar pra consulta com a psiquiatra

Tenho fibromialgia e isso já fez três anos e alguns meses. Até hoje sofro com ansiedade, medo, não saio de casa pra lugar algum a não ser para a igreja. Passei esse tempo todo em São Luís e agora estou com dois meses que vim para minha cidade, mas aqui não estou me sentindo bem, pois vem as lembranças e o medo de encontrar com essa criatura.

Então por tudo que passei quero deixar um recado para as mulheres que por mais que tenhamos medo, devemos pedir ajuda para alguém, para polícia. Eu tinha medo de denunciar pois ele me falava que não tinha medo de polícia. Ele sabia da minha fraqueza e manipulava minha mente. Mas hoje vejo tantas mulheres perderem a vida por não ter coragem de denunciar ou de pedir ajuda para uma pessoa da família. A gente fica com medo das pessoas nos questionarem, nos julgarem, muitas pessoas falam “por que não larga?”. Às vezes a gente quer largar, mas não tem força, nem apoio e também o psicológico está traumatizado.

Que minha história sirva de ajuda de alguma maneira.

Outra mulher com deficiência compartilhou conosco seu relato:

Meu nome é Margareth Reis, tenho 55 anos de idade, sou portadora de fibromialgia, síndrome do pânico, ansiedade e depressão.

Desde criança, sofri violência física, sexual e psicológica por parte de um dos meus irmãos. Na época, eu lutei muito para não ser agredida sexualmente, sempre lutei com todas as minhas forças para que a ação não se concretizasse de fato… E consegui, graças a Deus. Mas ficaram as sequelas desses vários episódios de agressão.

Desde essa época, eu sentia que havia algo de errado comigo: eram o pânico, a ansiedade e a depressão que já estavam tomando conta de mim.

Casei aos 19 anos com um homem 10 anos mais velho que eu, acreditando que ele seria meu defensor. Uma ilusão que eu criei. Ele também era um abusador sexual, moral e físico. O casamento durou 27 anos, pois foi quando eu resolvi dar um basta em tudo isso.

Desde pequena eu sempre senti dores no corpo inteiro e em 2012 eu tive o diagnóstico. Isso significa que as consequências de todos os abusos físicos e emocionais que eu sofri desde pequena, hoje tem nome: fibromialgia.

Não sei como eu pude suportar tantas dores no corpo por tantos anos. Hoje, com 55 anos, ainda recebo ameaças de morte por parte desse irmão que tentou inúmeras vezes abusar de mim sexualmente. Tenho 2 boletins de ocorrência sobre essas novas ameaças de agressão e morte. Fui orientada a baixar o aplicativo Salve Maria e lá tem o botão do pânico onde eu fui orientada a usar esse botão ao me sentir ameaçada. 

Fui diagnosticada como pessoa com deficiência pois além da fibromialgia eu também tenho Espondilite Anquilosante e até hoje meu pedido de BPC (benefício de prestação continuada) foi negado, mesmo passando nas perícias médicas. A justificativa da negação: não sou considerada como uma pessoa que vive em vulnerabilidade. Isso me desencadeou sucessivas crises de fibromialgia e vou com constância à UPA com fortes crises de dor e parada neurológica. 

Na minha cabeça ficam registradas todo o tipo de violência que eu já sofri e continuo sofrendo. E no meu corpo está registrado em forma de dores intensas e contínuas todo o sofrimento que passei e continuo passando. A fibromialgia é uma doença que causa um estrago muito grande no corpo, na mente e no emocional. 

Vivo um dia de cada vez. Infelizmente, eu ainda não saí da situação por completo porque, mesmo estando longe, ele continua com as ameaças. Mas eu consegui sair de um casamento abusivo.

Minha mente e meu corpo não descansam, ficam sempre em alerta.

o não descansam, ficam sempre em alerta.

Por fim, trazemos mais um relato com impactos até hoje,

Meu nome é Georgina de Cássia Coêlho Cardoso, sou moradora do Novo Horizonte, Paço do Lumiar. Tenho fibromialgia há mais de 13 anos. Sentia muita dor na coluna e no corpo todo e não sabia o que era.

Há treze anos, me envolvi com uma pessoa chamada Fabrício. No começo, ele era a pessoa mais maravilhosa que existiu na minha vida. Ele tinha uma família bem respeitada no tempo, por isso não achei nada de anormal. Um ano depois, precisei trabalhar, pois minha vida nunca foi fácil. Como até hoje, vim de uma família desestruturada, passava muita fome no tempo, lembro, e precisei trabalhar. Foi quando ele, Fabrício, ficou sabendo por outras pessoas e foi atrás de mim pra poder saber se isso era verdade. Pois falei pra ele que era verdade, que eu ia começar a trabalhar no outro dia. Ali começou o filme de terror. Na mesma hora, ele me pediu pra dormir na casa dele, que ia ficar mais fácil pra eu levantar cedo e tomar café pra começar a trabalhar. No primeiro dia que eu trabalhei, ele me ligava muito e, se eu não atendesse na hora, ele disse que eu iria morrer. Daí foi a primeira vez que fiquei apavorada e meu coração batia tanto que eu sentia na garganta.

Desse dia em diante, não consegui mais sair da casa dele, pois ele não me deixava sair de lá. Quando eu tentava sair pra casa do meu pai, ele sempre falava que se eu falasse pra alguém o que tava acontecendo, ele ia matar meu pai e meu sobrinho, que só tinha dois anos nesse tempo. Ele sabia que eu amava muito meu sobrinho, que eu andava grudada com ele, pois era o meu primeiro.

Pois bem, dois anos com ele me passando com ameaças e agressões… Um dia, minha irmã, a mãe do meu sobrinho que eu amava, percebeu que eu andava de cabeça baixa e sempre mal-humorada. Quando estávamos na casa do meu pai, na cozinha, felizes, nós duas fazendo comida, entrando em gargalhada, Fabrício, o pânico, estava na sala assistindo TV. Foi quando ele foi rápido atrás de mim na cozinha e me encarou com olhar de pressão e chutou a minha perna. Daí eu me assustei com dor, e minha irmã falou pra ele: “Eu vi, Fabrício, o que tu fez com ela”. Daí, como sempre, ele falava que era mentira, que ele não tinha feito nada. E ele me pegou pelo braço e me levou pra casa dele. A briga foi intensa, ele não parava de gritar e me chutava muito, eu no chão. Foi quando eu fiquei quietinha na cama, sem falar nada. Ele se irritou e me deu uma cotovelada no meu nariz, sangrou tanto e minha cara ficou toda roxa. Ninguém conseguiu me visitar e nem pude ir ao hospital. Ele parecia estar com medo do que ia acontecer com um vacilo dele. Consegui ligar pra minha irmã, mãe do meu sobrinho que eu amava, e ela me perguntou como eu estava. Eu falei pra ela chamar a polícia. Foi quando a polícia chegou e levou ele. Nós fomos todos pra delegacia, só que o delegado disse que não poderia ficar com ele preso e me pediu pra ir embora, que ele iria me dar um tempo pra depois soltar o Fabrício.

Foi quando eu saí da delegacia, falei com minha irmã, fui dormir na casa do meu pai escondida e meu pai comprou uma passagem pra euviajar. Viajei, passei seis meses por lá. Foi o tempo o suficiente pra ele me esquecer. E estou aqui até hoje, com o nariz quebrado, com sequelas, meu psicológico afetado e pânico.

Esses relatos mostram o quanto essas violências podem marcar negativamente a vida das mulheres vítimas de violência doméstica, impactando na saúde física e mental, além de comprometer outras áreas da vida delas como a econômica.

Quer saber mais ou discutir sobre o assunto, leia nosso último boletim do Observatório de Inclusão e Economia clicando aqui.


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