
Nesta edição, trazemos a história de Andressa Linhares, relações públicas da iniciativa de comunicação comunitária Comunica PcD. Ela aborda sua relação com a moda e traz reflexões importantes sobre o dia a dia das pessoas com deficiência e o que deveria ser tão simples: o vestir.
Essa questão de roupa é muito complicada para mim, porque tenho a estatura pequena e isso faz com que quando eu vou procurar roupa para mim, determinadas roupas que eu gosto ou ficam extremamente longas e tenho que mandar diminuir ou eu tenho que lidar com o fato de ela ser longa e dar um jeito na hora de vestir, principalmente se eu comprar de última hora que é uma coisa que não acontece, raramente acontece, na realidade. Por quê? Porque a pessoa com deficiência tem que se planejar muito bem antes de fazer qualquer coisa, quiçá comprar uma roupa.
Então eu compro em lojas comuns, C&A, Riachuelo, Marisa e isso me pega muito porque eu queria em algumas ocasiões comprar em lojas no Centro mais em conta de 20, de 30 (reais) em relação a essas que são mais caras, só que eu não consigo porque eu não tenho nem acesso físico para estar lá. E se eu estiver lá é na companhia de alguém e tirando o tempo da pessoa. Então acaba que tenho essa acessibilidade para ir atrás das minhas roupas.
O que acontece é o seguinte: eu compro muito as minhas roupas baseadas muito no tecido, não é qualquer tecido. Por quê? O meu corpo não é igual ao de uma pessoa que não tem deficiência, ainda mais eu que tenho Osteogênese imperfeita, que são osso de vidro, então meu tórax é um pouco avantajado, então determinadas roupas não vão passar direito no tórax, na parte do busto, então compro roupas em que a malha estique. Se ela tiver um molde menor, posso estar esticando.
E uma coisa que pega muito para mim são os calçados. Meu Deus do céu! Uso 25, 28, 30. Raramente uso 30. Aconteceu de eu usar (30) uma vez na vida por causa da forma do sapato. Eu posso comprar só na Mini Melissa que custa caro. Então só aí você vê que a pessoa com deficiência para se vestir minimamente bem ela tem que desembolsar ali… ter uma boa condição. Se não, ela vai usar o que tem, o que dá. E às vezes o que dá não é tão confortável.
Às vezes eu consigo comprar também na Riachuelo na parte do departamento de sapatos para crianças, tenho que comprar os que minimamente não sejam tão infantis para que eu possa estar utilizando.
O que eu faço mesmo, uma questão pessoal, é não comprar roupa só no “olhômetro”: ver a roupa e comprar a partir de tamanho X. Porque às vezes a forma daquela roupa não vai caber em mim mesmo sendo o tamanho que eu utilizo. Teve vez que comprei roupa tamanho G e ficou perfeita, sendo que uso M.
Ajuda também que no decorrer do tempo eu cresci mais do que deveria para quem tem osteogênese, então minhas roupas acabam ficando mais fáceis de comprar com muitas aspas, né? Falo em relação ao tamanho. Mas eu preciso provar a roupa e em algumas lojas não tem essa possibilidade.
Vai do critério do meu corpo também, às vezes estou com dor, como tenho osteogênese, então não posso provar, aí tenho que me arriscar.
Mas acredito que é mais uma questão mesmo que a sociedade não consegue enxergar a pessoa com deficiência nos detalhes do dia a dia. E quando digo detalhes, é também quando a gente se veste, é também o fato da gente se vestir. O que é mais interessante é que eu construo minha moda atualmente, não fico destoando da moda na sociedade, mas eu fico focando na minha própria moda. Eu construo a minha moda, porque se eu for atrás do que as pessoas estão vestindo agora, as mulheres, as meninas, enfim, eu não me sentiria bem, eu não conseguiria.
Existem algumas roupas que não são projetadas para corpos diferentes. São projetadas para corpos padrões ou então para corpos que não têm deficiência. E quando digo isso tem a vez com estatura, com forma do corpo, tem a ver com tamanho, da diferença da forma do corpo de cada ser humano.
A pessoa com deficiência física, dependendo da deficiência, ela não tem o corpo estrutural fisicamente falando igual ao da pessoal que não tem deficiência nenhuma. Ou então dependendo da deficiência de uma pessoa para outra. A minha corresponde a ter algumas deformidades, quando eu vou comprar sapatos, por ter deformidade no pé, tenho dificuldade por causa desse detalhe.
A minha moda de fato é uma coisa construída por mim. Eu acho que as pessoas com deficiência deveriam se basear muito nisso também. Já impõem tanto para gente estar minimamente seguindo um padrão, coisa que a gente nunca vai conseguir, porque ninguém consegue. Então a gente tem que pelo menos fazer acontecer a nossa identidade. E é isso que eu faço em relação às minhas roupas, porque se a gente não for atrás disso, a gente não consegue.
Outra coisa também que percebo é em relação ao atendimento, pergunto “tem essa roupa?” eles “tenho, mas acho que não vai caber na senhora”. Como é que eles sabem? A falta de preparo no atendimento na pessoa com deficiência desestimula a própria pessoa a querer fazer o básico que é se vestir. Por que ela pensa: não vai caber em mim, essa roupa é muito pequena ou muito grande, acaba nem levando e aquela roupa poderia servir. Acho que são detalhes assim que se a gente for analisar parte de um discurso de que a sociedade realmente não está adaptada e não quer estar que é pior ainda, porque a gente passa o tempo todo falando a respeito de acessibilidade, já tem muita coisa sendo falada, cobrada, reivindicada, mas a sociedade continha no limbo de querer botar a gente numa caixinha, segregar ali.
Então não se tem. Poderia se ter um espaço ali. Fazem propagandas com pessoas com deficiência, a pessoa é cadeirante, mas com corpo padrão, sem uma deformidade sequer, do tamanho de uma pessoa sem deficiência. Aí aparece lá. De uma deficiência para outra, vai mudando o físico, então não pode achar que só aquela pessoa vai estar representando a mim por completo só por estar na cadeira de rodas. Sabe, é muito complexo.
Não tem como uma pessoa com deficiência se sentir pertencente no mundo da moda. porque a gente pode até ser ouvido e ser visto, mas a prática da coisa, sabe, eu conseguir perceber que existem roupas para mim como roupas com velcro, roupas que dessem uma moldada dependendo de como são feitas, com zíper e coisas que a gente consiga não só se vestir, mas a questão de moldar nosso próprio corpo, porque existem corpos diferentes no mundo das pessoas com deficiência física.
Então acho que seria muito interessante se tivesse nesse âmbito. Mas creio que não. Se eu não fizer a minha moda, se eu não for atrás e com muita antecedência, pelo menos eu sou uma pessoa que me organizo. Se eu vou a um show daqui dois meses, preciso procurar roupa agora, que eu me sinta confortável. Se eu perceber que vai me apertar em algum lugar, porque tenho deficiência nos ossos, se não vai apertar meu físico, meu tórax, são coisas muito pequenas para quem está de fora, mas que para quem está vivenciando são grandiosas e fazem toda diferença.
Acredito que pertencer mesmo ao mundo da moda não é ver desfilando a pessoa com deficiência enquanto a gente não vê na prática em lojas que a gente costuma estar utilizando, costuma ir, a gente não vê roupas diferenciadas pensadas, elaboradas, um departamento só para pessoas com deficiência, roupas que possam estar alinhadas com o pensamento de ser para pessoas diferentes.
Enquanto não tiver isso, não tem como se sentir pertencente. No máximo, o que a gente pode dizer é que a gente tem que se preparar para viver num mundo onde não se pensa na gente. A gente se adapta ao mundo, mas o mundo não se adapta pra gente nem quando a gente quer se vestir.
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