
A trajetória de profissionais com deficiência no mercado de trabalho revela desafios que vão além da contratação. Três histórias, em diferentes áreas de atuação, ajudam a compreender como a ausência de perspectivas de crescimento impacta diretamente a experiência desses trabalhadores.
Luis, 39 anos, atua na área administrativa e possui formação compatível com sua função. Ainda assim, sua trajetória é marcada pela sensação de não reconhecimento. Mesmo inserido há anos na empresa, ele relata dificuldades em ser percebido como um profissional apto a assumir maiores responsabilidades, permanecendo em uma posição que não reflete sua qualificação. Como ele mesmo resume:
“Eu sinto que nunca fui colocado de fato dentro da minha função propriamente dita, tenho formação, mas ainda sou tratado como assistente.”
No setor do comércio, a experiência de Thalita, 47 anos, evidencia outro tipo de barreira. Ao longo de sua trajetória, ela se deparou com a falta de acessibilidade estrutural, o que resultou em seu desligamento de uma empresa. O episódio revela que, em alguns contextos, a inclusão ainda não é sustentada por condições mínimas de permanência. Em suas palavras:
“Já passei por um trabalho em que infelizmente fui desligada por não haver acessibilidade estrutural, então percebi que a empresa não fazia a mínima questão para que eu ocupasse o lugar ou fizesse parte.”
Já Julia, 34 anos, contadora, representa uma perspectiva mais subjetiva, mas igualmente significativa. Sua experiência é atravessada por um sentimento constante de precisar provar sua capacidade. Mesmo inserida no mercado, a ausência de oportunidades claras de crescimento contribui para a construção de inseguranças em relação ao seu futuro profissional. Como ela relata:
“Sinto que todo tempo estou me colocando em prova e que nunca serei suficiente para uma empresa.”
Apesar das diferenças entre as trajetórias, há um ponto de convergência entre os três casos: todos ingressaram no mercado por meio da política de cotas e, ao longo dos anos, não tiveram acesso a progressões estruturadas de carreira. Em alguns casos, a permanência ultrapassa sete anos na mesma função, sem mudanças significativas de cargo, limitando-se a reajustes salariais inflacionários.
As histórias revelam não apenas a presença de barreiras institucionais, mas também os impactos subjetivos dessa estagnação. A ausência de crescimento compromete não só o desenvolvimento profissional, mas também o sentimento de pertencimento e reconhecimento dentro das organizações.
Ao observar essas trajetórias, torna-se evidente que a inclusão efetiva exige mais do que acesso. Ela demanda continuidade, investimento e, sobretudo, a construção de caminhos reais para o desenvolvimento profissional.
Observação: os nomes, idades e segmentos das empresas foram alterados e não serão revelados, a fim de proteger a identidade dos participantes.
Para saber mais sobre este e outros assuntos, acesse o site do Observatório de Inclusão e Economia clicando aqui.
Deixe um comentário