Inclusão em números #12 – Arte e Cultura

Imagem de um arraial, ao fundo estão bandeirinhas penduradas, brincantes e no centro da imagem está o boi decorado. Fim da descrição. 
Foto de Yuri Granero

No Brasil, o Censo Demográfico 2022 identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais. No Maranhão, esse percentual é ainda maior: são 536.105 pessoas com deficiência, o que representa 8,1% da população maranhense nessa faixa etária.

O dado coloca o estado acima da média nacional e reforça que acessibilidade e inclusão não podem ser tratadas como elementos complementares na organização dos eventos culturais, mas como parte essencial das políticas públicas de cultura.

Durante o período junino, essa discussão ganha ainda mais força. Os arraiais são espaços de convivência, memória, identidade e expressão popular. Por isso, garantir a presença de pessoas com deficiência nesses ambientes significa mais do que permitir que elas assistam às apresentações: significa assegurar que possam circular com autonomia, acessar informações, consumir produtos, interagir com outras pessoas e participar da festa também como artistas, brincantes, músicos, dançarinos, produtores e fazedores de cultura.

A acessibilidade cultural deve ser compreendida como condição para a participação plena. Isso inclui rampas, banheiros adaptados, piso tátil, intérpretes de Libras, sinalização acessível, cardápios adaptados e espaços reservados. Mas também exige outro olhar: quantas pessoas com deficiência estão nos palcos, nos grupos culturais, nas equipes de produção, nas curadorias, nos editais, nos cachês e na programação oficial?

A partir de buscas em fontes públicas, documentos institucionais, registros disponíveis na internet e entrevistas analisadas, foi possível identificar grupos e artistas maranhenses com deficiência atuando em diferentes linguagens culturais.

Entre eles, destaca-se o Bumba-Boi Mimoso da APAE de São Luís, experiência consolidada de inclusão cultural que reúne pessoas com deficiência intelectual e múltipla em uma das manifestações mais tradicionais do Maranhão. O grupo, com quase três décadas de existência, participa de arraiais e eventos culturais da cidade, envolve ensaios, figurinos, personagens tradicionais, música, dança e acompanhamento de uma equipe multidisciplinar.

Outro exemplo é o Boi Brilho da Diversidade e Inclusão do Maranhão, iniciativa que nasce com a proposta de colocar pessoas com deficiência e corpos diversos no centro da cultura popular. O projeto reforça que a inclusão verdadeira não acontece apenas quando pessoas com deficiência são recebidas como público, mas quando elas também ocupam o palco, criam, cantam, dançam, produzem e compartilham suas próprias narrativas dentro da festa.

Também foram identificadas trajetórias individuais, como a de Maria Rocha, conhecida como “Dançarina sobre Rodas”, e Isabelle Passinho, mulher com deficiência que aparece em registros relacionados à mobilidade inclusiva, ao ativismo e à participação cultural.

Esses nomes mostram que há produção artística de pessoas com deficiência no Maranhão, embora nem sempre ela esteja visível nas programações oficiais ou nos levantamentos públicos disponíveis. As experiências do Bumba-Boi Mimoso e do Boi Brilho da Diversidade e Inclusão podem ser acompanhadas em entrevistas disponíveis no YouTube, no link a seguir:CULTURA EM PAUTA – BOI MIMOSO DA APAE DE SÃO LUÍS Papo de Cadeira – Boi Brilho da Diversidade e Inclusão do Maranhão

Apesar desses exemplos, o levantamento aponta uma lacuna importante: ainda não há, de forma facilmente acessível ao público, um mapeamento oficial que informe quantos artistas, brincantes, grupos culturais ou produtores com deficiência estão cadastrados, credenciados, contratados ou contemplados nas programações juninas promovidas ou apoiadas pelo poder público.

Esse vazio dificulta a avaliação da representatividade real das pessoas com deficiência na cultura. Em um estado com mais de meio milhão de pessoas com deficiência, o número de grupos e artistas identificados publicamente ainda parece pequeno diante da dimensão das programações juninas e da quantidade de atrações contratadas anualmente.

Isso não significa ausência de produção cultural, mas revela a necessidade de políticas mais estruturadas de mapeamento, fomento, contratação e visibilidade. Assim, a discussão sobre inclusão nos arraiais precisa avançar. Acessibilidade é garantir que pessoas com deficiência possam chegar, permanecer e circular nos espaços culturais.

Representatividade é assegurar que elas também possam ser reconhecidas como artistas, brincantes, criadoras e protagonistas da cultura popular maranhense.A pergunta que fica é: os arraiais estão preparados apenas para receber pessoas com deficiência como espectadoras ou também para reconhecê-las como parte ativa da festa?

Segundo a Lei Brasileira de Inclusão, pessoas com deficiência têm direito à cultura em igualdade de oportunidades. Isso significa que eventos culturais devem garantir condições de acesso, permanência, circulação, comunicação e participação, eliminando barreiras físicas, comunicacionais, sensoriais, atitudinais e programáticas. No contexto dos festejos juninos, essa discussão se torna ainda mais importante, já que os arraiais são espaços de celebração coletiva, expressão da cultura popular e fortalecimento da identidade maranhense.

Mais do que verificar se pessoas com deficiência conseguem chegar aos arraiais e assistir às apresentações, o levantamento também busca compreender se esses espaços estão preparados para acolhê-las com autonomia, segurança e dignidade, tanto como público quanto como artistas, brincantes, fazedores de cultura e protagonistas da programação. A acessibilidade, nesse sentido, não deve ser vista apenas como uma obrigação estrutural, mas como uma condição essencial para que todas as pessoas possam participar plenamente da vida cultural da cidade.

Sabendo disso e aproveitando o período de festividades juninas, o Observatório de Inclusão e Economia realizou um levantamento em arraiais de São Luís para analisar as condições de acessibilidade e inclusão nesses espaços. A proposta foi observar se os eventos estão preparados para receber pessoas com diferentes tipos de deficiência, considerando não apenas a presença de estruturas físicas adaptadas, mas também a existência de recursos comunicacionais, sensoriais e de participação cultural.

Para a análise, foram considerados os seguintes aspectos:

  • acesso aos banheiros;
  • existência de banheiros adaptados;
  • espaço reservado próximo ao palco para pessoas com deficiência;
  • circulação livre e segura entre barracas, áreas de convivência, entrada e saída;
  • existência de espaços sensoriais ou de descompressão para pessoas neurodivergentes em situações de sobrecarga;
  • presença de profissionais ou intérpretes para disponibilizar informações em Libras;
  • existência e conservação de piso tátil;
  • placas de sinalização em tamanho ampliado;
  • indicações em Braille;
  • cardápios adaptados para pessoas cegas ou com baixa visão;
  • acessibilidade no palco para artistas, brincantes e grupos culturais com deficiência;
  • presença de pessoas com deficiência na programação artística ou cultural;
  • atendimento prioritário em caixas, filas e pontos de serviço;
  • orientação das equipes para acolhimento adequado do público com deficiência.

A partir desses critérios, o levantamento buscou identificar não apenas quais recursos de acessibilidade estão disponíveis, mas também quais barreiras ainda impedem a participação plena das pessoas com deficiência nos arraiais. A análise parte do entendimento de que inclusão cultural não se resume a reservar um espaço na plateia: é preciso garantir que pessoas com deficiência possam circular, compreender, interagir, consumir, se expressar, se apresentar e ocupar a festa como parte ativa da cultura popular.

Arraial Santo Antônio 

Dos itens da lista, neste arraial identificamos como adequado apenas o espaço para circulação entre barracas e a entrada/saída, porém conforme aumentava a quantidade de pessoas no local, essa circulação já se torna inviável. 

Em geral, tem muitas rampas, mas mesmo assim o piso pode causar quedas, uma situação comum no Centro Histórico da cidade. O acesso aos banheiros também é complicado, são disponibilizados apenas banheiros químicos que estão localizados atrás do palco, chegar lá é difícil, perigoso (risco de assalto) e a rua é de pedras. 

Arraial do Pátio Norte Shopping 

Há amplo espaço de estacionamento (com vagas reservadas para pessoas com deficiência) e para circulação, o arraial funciona no piso superior, mas há elevadores para chegar até lá. Também tem banheiros adaptados, mas os no andar do evento estavam em reforma. 

Apesar do espaço livre para acompanhar as apresentações próximo ao palco e para transitar por todo o local, o palco alto sem rampas, apenas com uma escada na lateral, exige que pessoas com deficiência de locomoção ou em cadeiras de rodas precisem de ajuda de terceiros para subir até lá. 

Não foram encontrados intérpretes de libras.

Arraial do Cohatrac

Por ser um espaço público (praça), o espaço tem recursos como rampas e piso tátil, embora em algumas partes haja sinais de deterioração, entretanto ainda não chegam a prejudicar a circulação de pessoas. 

 Neste arraial, há o espaço reservado para pessoas com deficiência. O local é à beira do palco e posicionado de maneira que essas pessoas terão acesso às apresentações culturais. O espaço também tem banheiros adaptados. 

O cardápio não é adaptado para pessoas com deficiência visual e também não foram encontrados intérpretes de Libras. 

Arraial da Assembleia Legislativa do Maranhão 

Espaço com área reservada para circulação de pessoas com deficiência, intérprete de Libras durante as apresentações culturais, banheiro reservado, espaço específico para que pessoas com deficiência possam assistir às apresentações e também possam se apresentar, tendo em vista as rampas para acesso ao palco principal (músicos) e ao mais baixo onde se apresentam os grupos de dança. 

Também são reservadas vagas no estacionamento e tem atendimento prioritário no caixa para comprar comidas e bebidas. 

Arraial do Ipem

Sendo o arraial mais movimentado da Ilha, teve início no dia 06 de junho de 2026. Conta com barracas de comidas típicas e de restaurantes renomados de São Luís, estruturas de alto padrão, ativações de empresas e de marcas regionais e nacionais, policiamento, Corpo de Bombeiros e socorristas. Além do palco principal para atrações, possui barracão do forró e palco menor para apresentações de artistas locais. O arraial também acontece em uma área nobre da cidade, nos Altos do Calhau.

Pontos de atenção:

Seguem alguns pontos de atenção identificados:

Sonorização: A sonorização faz parte do espetáculo, mas o som misturado ao som ambiente é um fator prejudicial ao público neurodivergente e às pessoas com deficiência visual.

Falta de acessibilidade sensorial: Existe intérprete de LIBRAS durante as apresentações do palco principal, mas, quando se trata da praça de alimentação, não há nenhuma barraca que conte com atendimento em LIBRAS, nem mesmo oferecido pela própria organização do evento. Como uma pessoa surda pode se alimentar de forma autônoma?

Piso tátil: Existem pontos que contam com piso tátil, mas em outros pontos não. Além disso, há muitos obstáculos e riscos para a pessoa com deficiência visual, não garantindo a autonomia desse público.

Acessibilidade atitudinal ausente: Principalmente para pessoas cadeirantes, que não têm espaço para locomoção devido ao grande público presente no local. A maioria das pessoas não demonstra empatia e respeito pelas Pessoas com Deficiência.

O Arraial do Ipem tem uma estrutura grande e bem-feita. Mas, por se tratar de um arraial de grande porte e bem estruturado, era de se esperar que a acessibilidade fosse mais presente e que realmente proporcionasse ao público PcD segurança e autonomia para frequentar o evento.

O levantamento mostra que os arraiais de São Luís apresentam níveis diferentes de acessibilidade. Alguns espaços avançam em aspectos físicos, como rampas, áreas reservadas e banheiros adaptados. Outros começam a incorporar recursos comunicacionais, como intérprete de Libras.

No entanto, ainda há lacunas recorrentes, especialmente em relação à acessibilidade sensorial, à comunicação em Libras fora dos palcos, aos cardápios acessíveis, à sinalização em Braille, à continuidade do piso tátil e à acessibilidade dos palcos para artistas com deficiência.Também chama atenção o fato de que a acessibilidade ainda é pensada, na maioria dos casos, a partir da presença da pessoa com deficiência como espectadora.

Poucos espaços demonstram preocupação clara com a participação dessas pessoas como artistas, brincantes, músicos, dançarinos ou integrantes da produção cultural.A análise reforça que inclusão cultural não se limita a permitir a entrada no arraial. É preciso garantir permanência, circulação, comunicação, consumo, segurança, autonomia e protagonismo. Em outras palavras, os arraiais precisam estar preparados não apenas para receber pessoas com deficiência, mas para reconhecê-las como parte ativa da cultura popular maranhense.

Por fim, para quem busca orientações promover a acessibilidade nesses espaços, sugerimos o texto criado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, trata-se de um Manual de Acessibilidade para eventos presenciais. Leia o texto clicando aqui

Texto de Gabriel Bartowski, Sâmia Martins e Victória Chaves.

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