Minha história #15 – Empreendedorismo

Imagem em fundo preto. Há o desenho em giz branco de um livro aberto, sobre ele aparecem duas mãos: uma segura algumas páginas, enquanto a outra parece escrever um texto. Fim da descrição.
Fonte: imagem gerada via IA Adobe Firefly.

Quando a deficiência não pode ser maior que a pessoa

Falar sobre a trajetória de Andressa Linhares é também falar sobre os diferentes lugares que uma mulher com deficiência precisa ocupar para ser reconhecida. Relações públicas, mulher, profissional, estudante, comunicadora. Nenhuma dessas identidades existe separadamente, mas, muitas vezes, é assim que a sociedade insiste em enxergá-las.

Durante sua trajetória acadêmica e profissional, Andressa percebeu que a formação, por si só, não era suficiente para garantir que as portas do mercado de trabalho estivessem abertas.

Ela conta que concluir a universidade foi uma conquista importante, especialmente diante das barreiras sociais, financeiras, institucionais e arquitetônicas que ainda atravessam a trajetória de muitas pessoas com deficiência. Mas foi depois da formação que veio uma das maiores frustrações: perceber que as empresas nem sempre estavam procurando uma profissional competente. Muitas vezes, estavam procurando alguém que considerassem “funcional”.

“A gente é uma pessoa que estudou tanto quanto uma pessoa que não tem deficiência.”

Essa percepção fez com que Andressa olhasse de outra forma para o mercado de trabalho. Para ela, as dificuldades não estão necessariamente na falta de qualificação das pessoas com deficiência, mas nas poucas oportunidades e na maneira como essas pessoas são percebidas.

E essa percepção também passa pelo fato de ser mulher.

Andressa chama atenção para algo que aparece em diferentes momentos de sua trajetória: muitas vezes, a sociedade não consegue enxergar a mulher com deficiência em sua integralidade. A deficiência passa a ocupar tanto espaço que outras dimensões daquela pessoa deixam de ser percebidas.

Ser mulher, nesse caso, parece vir depois da deficiência.

E quando a sociedade finalmente olha para ela como mulher, ainda existe o risco de que essa mulher seja percebida apenas a partir da deficiência.

É nesse lugar que Andressa entende a comunicação como parte importante da sua trajetória. Como relações públicas, percebe que existe uma necessidade de comunicar não apenas o que uma pessoa com deficiência é capaz de fazer, mas também quem ela é, para além da deficiência.

Essa experiência apareceu tanto na universidade quanto no mercado de trabalho. Ao longo de sua trajetória, Andressa percebeu que precisava demonstrar sua competência para ocupar os espaços. Quando conseguia mostrar que era uma boa profissional, era reconhecida pelo trabalho que realizava. Mas isso nem sempre significava ser percebida também como uma mulher com deficiência que estava ocupando aquele espaço.

Essa diferença pode parecer pequena, mas diz muito sobre como a sociedade ainda constrói suas relações com as pessoas com deficiência.

E quando falamos sobre empreendedorismo, a experiência de Andressa traz outra reflexão.

Para ela, empreender pode, sim, ser uma possibilidade. Pode ser uma escolha para quem encontra nesse caminho autonomia, identificação e uma forma de construir seu próprio trabalho. Mas é preciso observar o que existe por trás dessa escolha.

Ela questiona, por exemplo, o que acontece quando uma pessoa se forma em uma determinada área, se especializa e, depois de não encontrar oportunidades por causa da deficiência, precisa empreender em uma atividade completamente diferente para conseguir sobreviver.

Nesse caso, o empreendedorismo continua sendo uma possibilidade, mas também pode revelar a ausência de outras possibilidades.

A questão não é desvalorizar quem empreende. É entender as condições que levaram aquela pessoa até ali.

É por isso que a história de Andressa conversa diretamente com a discussão proposta nesta edição. Falar sobre empreendedorismo para pessoas com deficiência também é falar sobre acesso ao trabalho, formação, autonomia, rede de apoio e, principalmente, sobre o direito de escolher.

Porque empreender pode ser uma escolha.

Mas conseguir trabalhar na área em que estudou também deveria ser.

No relato de Andressa, fica uma reflexão que ultrapassa o mercado de trabalho: pessoas com deficiência não precisam ser vistas apenas como pessoas que precisam provar sua capacidade. Elas já são profissionais, mulheres, estudantes, comunicadoras, empreendedoras e tantas outras coisas antes mesmo que alguém decida enxergá-las assim.

Talvez o desafio esteja justamente em conseguir olhar para a pessoa inteira.

Não apenas para a deficiência.

Não apenas para aquilo que ela consegue fazer.

Mas para quem ela é e para tudo aquilo que também pode escolher ser.

Texto de Victória Chaves.

Imagem em fundo transparente. Logotipo em dois tons de azul. No centro, há o desenho de duas pessoas vistas de cima, elas dão as mãos formando um círculo. Abaixo desse desenho há o nome Observatório de Inclusão e Economia. Fim da descrição.
Fonte: Observatório de Inclusão e Economia.